Josemaría Escrivá Obras
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A verdadeira devoção ao coração de Cristo

Consideremos toda a riqueza que se encerra nestas palavras: Sagrado Coração de Jesus.

Quando falamos de um coração humano, não nos referimos só aos sentimentos: aludimos à pessoa toda que quer, que ama, que convive com os outros. Ora, na maneira de os homens se exprimirem, que a Sagrada Escritura utiliza para nos dar a entender as coisas divinas, o coração é tido por resumo e fonte, expressão e fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das acções. Um homem vale o que vale o seu coração - diríamos com palavras bem humanas.

Ao coração pertence a alegria: alegre-se o meu coração com o teu auxílio! ; o arrependimento: o meu coração é como cera que se derrete dentro do peito ; o louvor a Deus: do meu coração brota um cântico belo ; a decisão para ouvir o Senhor: está disposto o meu coração ; a vigília amorosa: eu durmo, mas o meu coração vigia . E ainda a dúvida e o temor: não se perturbe o vosso coração; crede em Mim .

O coração não sente apenas: também sabe e entende. A lei de Deus é recebida no coração, e nele permanece escrita. E a Escritura acrescenta: a boca fala da abundância do coração. O Senhor lançou em rosto a uns escribas: porque pensais mal em vossos corações?. E, para resumir todos os pecados que um homem pode cometer, disse: é do coração que saem todos os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as fornicações, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfémias .

Quando, na Sagrada Escritura, se fala de coração, não se trata de um sentimento passageiro, que perturba ou faz nascer as lágrimas. Fala-se do coração para indicar a pessoa, pois esta, como disse o próprio Jesus, orienta-se toda - alma e corpo - para o que considera o seu bem: porque onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração.

É por isso que, quando falamos do coração de Jesus, manifestamos a certeza do amor de Deus e a verdade da sua entrega a nós mesmos. Recomendar a devoção a esse Sagrado Coração é o mesmo que dizer que nos devemos orientar integralmente, com tudo o que somos - a nossa alma, os nossos sentimentos, os nossos pensamentos, palavras e acções, os nossos trabalhos e as nossas alegrias - para Jesus todo.

Nisto se define a verdadeira devoção ao Coração de Jesus: em conhecer a Deus e conhecermo-nos a nós mesmos, e em olhar para Jesus e recorrer a Ele - que nos anima, nos ensina, nos guia. A única superficialidade que pode haver nesta devoção é a do homem que não é integralmente humano e que, por isso, não consegue aperceber-se da realidade de Deus feito carne.

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