Josemaría Escrivá Obras
 
 
 
 
 
 
  Amigos de Deus > O Tesouro do tempo > Cap 3
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Gosto sempre de lembrar, quando me dirijo a vós e conversamos todos juntos com Deus Nosso Senhor, que estou a fazer a minha oração pessoal em voz alta. Pela vossa parte, deveis esforçar-vos também por alimentar a vossa oração nas vossas almas, mesmo quando, por qualquer circunstância, como a de hoje, por exemplo, sintamos a obrigação de tratar de um tema que não parece, à primeira vista, muito adequado para um diálogo de amor, que é isso o nosso colóquio com o Senhor. Digo à primeira vista, porque tudo o que nos acontece, tudo o que se passa ao nosso lado pode e deve ser tema da nossa meditação.

Tenho de falar-vos do tempo, deste tempo que vai passando. Não vou repetir a conhecida afirmação de que um ano a mais é um ano a menos... Nem sequer vos sugiro que pergunteis o que é que por aí pensam da passagem dos dias, pois provavelmente - se o fizésseis - ouviríeis alguma resposta deste estilo: juventude, divino tesouro, que passas para não voltar... Embora admita que talvez ouvísseis alguma consideração com mais sentido sobrenatural.

Também não quero deter-me a pensar na brevidade da vida, com laivos de nostalgia. Para nós, cristãos, a fugacidade do caminho terreno deve incitar-nos a aproveitar melhor o tempo, não a temer Nosso Senhor, e muito menos a olhar a morte como um final desastroso. Um ano que termina - já foi dito de mil modos, mais ou menos poéticos - com a graça e a misericórdia de Deus, é mais um passo que nos aproxima do Céu, nossa Pátria definitiva.

Ao pensar nesta realidade, compreendo perfeitamente aquela exclamação que S. Paulo escreve aos de Corinto: tempus breve est!, que breve é a nossa passagem pela terra! Para um cristão coerente, estas palavras soam, no mais íntimo do seu coração, como uma censura à falta de generosidade e como um convite constante a ser leal. Realmente é curto o nosso tempo para amar, para dar, para desagravar. Não é justo, portanto, que o malbaratemos, nem que atiremos irresponsavelmente este tesouro pela janela fora. Não podemos desperdiçar esta etapa do mundo que Deus confia a cada um de nós.


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Abramos o Evangelho de S. Mateus, no capítulo vigésimo quinto: então será semelhante o reino dos céus a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo e da esposa. Mas cinco delas eram loucas e cinco prudentes. O evangelista conta que as prudentes aproveitaram o tempo. Abastecem-se discretamente do azeite necessário e estão preparadas quando as avisam: Eia, está na hora! Eis que vem o esposo, saí ao seu encontro; avivam as suas lâmpadas e apressam-se a recebê-lo com alegria.

Há-de chegar também para nós esse dia, que será o último e não nos causa medo. Confiando firmemente na graça de Deus, estamos dispostos desde este momento, com generosidade, com fortaleza, pondo amor nas pequenas coisas, a acudir a esse encontro com o Senhor, levando as lâmpadas acesas, porque nos espera a grande festa do Céu. Somos nós, irmãos queridíssimos, os que intervimos nas bodas do Verbo. Nós, que já temos fé na Igreja, que nos alimentamos com a Sagrada Escritura, que nos sentimos contentes pelo facto de a Igreja estar unida a Deus. Pensai agora, peço-vos, se viestes a esta boda com o traje nupcial: examinai atentamente os vossos pensamentos. Asseguro-vos - e também o asseguro a mim mesmo - que esse traje de cerimónia será tecido com o amor de Deus com que tivermos sabido realizar até as mais pequenas tarefas. Efectivamente, é próprio dos apaixonados cuidar dos pormenores, mesmo nas acções que aparentemente não têm importância.


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Mas voltemos à sequência da parábola. E as fátuas, que fazem? A partir de então, já põem empenho em esperar o Esposo, pois vão comprar azeite. Mas decidiram-se tarde e, enquanto foram, chegou o esposo; e as que estavam preparadas entraram com ele a celebrar as bodas, e fechou-se a porta. Mais tarde vieram também as outras virgens, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos! Não é que tenham permanecido inactivas, pois tentaram fazer alguma coisa... Mas ouviram a voz que lhes responde com dureza: não vos conheço. Não souberam ou não quiseram preparar-se com a solicitude devida e esqueceram-se de tomar a razoável precaução de adquirir o azeite a tempo. Faltou-lhes generosidade para cumprirem acabadamente o pouco que lhes tinha sido pedido. Dispunham na verdade de muitas horas, mas desaproveitaram-nas.

Pensemos na nossa vida com valentia. Por que é que às vezes não conseguimos os minutos de que precisamos para terminar amorosamente o trabalho que nos diz respeito e que é o meio da nossa santificação? Por que descuidamos as obrigações familiares? Por que é que se nos mete a precipitação no momento de rezar ou de assistir ao Santo Sacrifício da Missa? Por que nos faltará a serenidade e a calma para cumprir os deveres do nosso estado e nos entretemos sem qualquer pressa nos caprichos pessoais? Podeis responder-me: são coisas pequenas. Sim, com efeito, mas essas coisas pequenas são o azeite, o nosso azeite, que mantém viva a chama e acesa a luz.


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Desde a primeira hora

O reino dos céus é semelhante a um pai de família que, ao romper da manhã, saiu a contratar operários para a sua vinha. Conheceis já a narração: aquele homem volta à praça em diferentes ocasiões para contratar trabalhadores, sendo uns chamados ao romper da aurora e outros muito perto da noite.

Todos recebem um denário: o salário que te tinha prometido, isto é, a minha imagem e semelhança. No denário está impressa a imagem do Rei. Esta é a misericórdia de Deus, que chama a cada um de acordo com as suas circunstâncias pessoais, porque quer que todos os homens se salvem. Mas nós nascemos cristãos, fomos educados na fé, fomos escolhidos claramente pelo Senhor. Esta é a realidade. Então, quando vos sentis chamados a corresponder, mesmo que seja à última hora, podereis continuar na praça pública a apanhar sol, como muitos daqueles operários, porque lhes sobrava tempo?

Não nos deve sobrar o tempo. Nem um segundo. E não exagero! Trabalho há sempre. O mundo é grande e são milhões as almas que não ouviram ainda falar claramente da doutrina de Cristo. Dirijo-me a cada um de vós. Se te sobra tempo, medita um pouco: é muito possível que vivas no meio da tibieza, ou que, sobrenaturalmente, sejas um paralítico. Não te mexes, estás parado, estéril, sem realizar todo o bem que deverias comunicar aos que se encontram a teu lado, no teu ambiente, no teu trabalho, na tua família.


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Dir-me-ás talvez: e porque havia eu de me esforçar? Não sou eu quem te responde, mas S. Paulo: o amor de Cristo urge-nos. Todo o espaço de uma existência é pouco para alargar as fronteiras da tua caridade. Desde os primeiríssimos começos do Opus Dei, manifestei o meu grande empenho em repetir sem cessar, para as almas generosas que se decidam a traduzi-lo em obras, aquele grito de Cristo: nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros. Conhecer-nos-ão precisamente por isso, porque a caridade é o ponto de arranque de qualquer actividade de um cristão.

Jesus, que é a própria pureza, não garante que conhecerão os seus discípulos pela limpeza da sua vida. Ele, que é a sobriedade, que nem sequer dispõe de uma pedra onde reclinar a cabeça, que passou tantos dias em jejum e em retiro, não diz aos Apóstolos: conhecer-vos-ão como meus escolhidos, porque não sois comilões nem bebedores.

A vida limpa de Cristo era - como foi e será em todas as épocas - uma bofetada na sociedade de então, tão podre como a de agora. A sua sobriedade, outro látego para aqueles que se banqueteavam continuamente e provocavam o vómito depois de estarem cheios, para poderem continuar a comer, cumprindo à letra as palavras de Saulo: convertem o seu ventre num Deus.


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A humildade do Senhor era outro golpe naquele modo de consumir a vida, cada um ocupado apenas consigo mesmo. Estando em Roma, comentei repetidas vezes, e talvez até já mo tenhais ouvido dizer, que por baixo desses arcos, hoje em ruínas, desfilavam, triunfantes, vãos, orgulhosos, cheios de soberba, os imperadores e os seus generais vitoriosos. Ao atravessarem esses monumentos, é provável que baixassem a cabeça com receio de baterem no arco grandioso com a majestade das suas frontes. Todavia, Cristo, tão humilde, também não declara: conhecerão que sois meus discípulos, se fordes humildes e modestos.

Queria fazer-vos notar que, após vinte séculos, ainda aparece com toda a pujança de novidade o Mandato do Mestre, que é uma espécie de carta de apresentação do verdadeiro filho de Deus. Ao longo da minha vida sacerdotal, tenho pregado com muitíssima frequência que, desgraçadamente para muitos, continua a ser novo, porque nunca ou quase nunca se esforçaram por praticá-lo. É triste, mas é assim. E não há dúvida nenhuma de que a afirmação do Messias ressalta de modo terminante: nisto vos conhecerão, que vos amais uns aos outros! Por isso, sinto a necessidade de recordar constantemente essas palavras do Senhor. S. Paulo acrescenta: levai os fardos uns dos outros e, desta maneira, cumprireis a lei de Cristo. Momentos perdidos, talvez com a falsa desculpa de que te sobra tempo... Se há tantos irmãos, amigos teus, sobrecarregados de trabalho! Com delicadeza, com cortesia, com um sorriso nos lábios, ajuda-os, de tal maneira que se torne quase impossível que o notem; e que nem se possam mostrar agradecidos, porque a discreta finura da tua caridade fez com que ela passasse inadvertida.

Não tinham tido um instante livre, argumentariam aquelas infelizes que vão com as lâmpadas vazias. Aos operários da praça sobra-lhes a maior parte do dia, porque não se sentem obrigados a prestar serviço, embora o convite do Senhor seja contínuo e urgente desde a primeira hora. Aceitemo-lo nós, respondendo que sim, e suportemos por amor - que já não é suportar - o peso do dia e do calor.


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Render para Deus

Consideremos agora a parábola daquele homem que, estando para empreender uma viagem, chamou os seus servos e lhes entregou os seus bens. Confia a cada um deles uma quantia diferente, para ser administrada na sua ausência. Parece-me muito oportuno repararmos bem na conduta daquele que aceitou um talento: comporta-se de uma forma que na minha terra se chama esperteza de cuco. Pensa, raciocina com aquele cérebro pequenino e decide-se: cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.

Que ocupação escolherá depois este homem, se abandonou o instrumento de trabalho? Decidiu irresponsavelmente optar pela comodidade de devolver só o que lhe entregaram. Dedicar-se-á a matar os minutos, as horas, os dias, os meses, os anos, a vida! Os outros afadigam-se, negoceiam, empenham-se nobremente em restituir mais do que receberam: aliás, o legítimo fruto, porque a recomendação foi muito concreta: negotiamini dum venio, encarregai-vos deste trabalho para conseguirdes algum lucro, até que o dono regresse. Pois este não; este inutiliza a sua existência.


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Que pena viver tendo como ocupação matar o tempo, que é um tesouro de Deus! Não há desculpas para justificar essa actuação. Que ninguém diga: só tenho um talento, não posso ganhar nada. Também com um só talento podes agir de modo meritório. Que tristeza não tirar partido, autêntico rendimento de todas as faculdades, poucas ou muitas, que Deus concede ao homem para que se dedique a servir as almas e a sociedade!

Quando o cristão mata o seu tempo na Terra, coloca-se em perigo de matar o seu Céu, se, pelo seu egoísmo, se retrai, se esconde, se despreocupa. Quem ama a Deus, não entrega só o que tem, o que é, ao serviço de Deus: dá-se a si mesmo. Não vê - em perspectiva rasteira - o seu eu na saúde, no nome, na carreira.


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Meu, meu, meu..., pensam, dizem e fazem muitos. Que coisa tão triste! Comenta S. Jerónimo que, verdadeiramente, o que está escrito: "para encontrar desculpas dos pecados" (Ps CXL, 4), acontece com estas pessoas que, ao pecado de soberba, acrescentam a preguiça e a negligência.

É a soberba que afirma continuamente meu, meu, meu... É um vício que converte o homem numa criatura estéril, que lhe anula as ânsias de trabalhar por Deus e que o leva a desaproveitar o tempo. A tua vida para ti? A tua vida para Deus, para o bem de todos os homens, por amor ao Senhor. Desenterra esse talento! Torna-o produtivo e saborearás a alegria de saber que, neste negócio sobrenatural, não importa que o resultado na terra não seja uma maravilha que os homens possam admirar. O essencial é entregarmos tudo o que somos e possuímos, procurarmos que o talento renda e empenharmo-nos continuamente em produzir bom fruto.

Deus concede-nos talvez um ano mais para o servir. Não penses em cinco, nem em dois. Pensa só neste: em um, no que começámos. E entrega-o, não o enterres! Esta há-de ser a nossa determinação.


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Junto da vinha

Havia um pai de família, que plantou uma vinha, e a cercou com uma sebe, e cavou nela um lagar, e edificou uma torre, e arrendou-a a uns lavradores, e ausentou-se daquela região.

Gostaria que meditássemos nos ensinamentos desta parábola, do ponto de vista que nos interessa agora. A tradição viu, neste relato, uma imagem do destino do povo eleito por Deus; e ensinou-nos sobretudo como, a tanto amor da parte do Senhor, correspondemos nós, homens, com infidelidade, com falta de gratidão.

Pretendo concretamente deter-me nas palavras ausentou-se daquela região. Chego logo à conclusão de que nós, cristãos, não devemos abandonar esta vinha em que nos meteu o Senhor. Temos de empregar as nossas forças nesta tarefa, dentro da cerca, trabalhando no lagar e, acabada a jornada, descansando na torre. Se nos deixássemos arrastar pelo comodismo, seria o mesmo que responder a Cristo: os meus anos são para mim; não para Ti. Não quero decidir-me a tratar da tua vinha.


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O Senhor deu-nos a vida, os sentidos, as potências, graças sem conta. E não temos o direito de esquecer que somos, cada um, um operário, entre tantos, nesta fazenda em que ele nos colocou, para colaborar na tarefa de dar alimento aos outros. Este é o nosso sítio: dentro destes limites. Aqui temos nós de nos gastar diariamente com ele, ajudando-o no seu trabalho redentor.

Deixai-me que insista: o teu tempo para ti? O teu tempo para Deus! Pode ser que, pela misericórdia do Senhor, esse egoísmo não tenha entrado de momento na tua alma. Digo-te isto desde já, para estares prevenido no caso de sentires alguma vez que o teu coração vacila na fé de Cristo. Então, peço-te - pede-te Deus - que sejas fiel no teu empenhamento, que domines a soberba, que sujeites a imaginação, que não te deixes ir longe demais por leviandade, que não desertes.

Àqueles jornaleiros que estavam no meio da praça sobrava-lhes todo o dia; o que escondeu o talento na terra queria matar as horas; o que se devia ocupar da vinha vai para outro lado. Todos demonstram a mesma insensibilidade perante a grande tarefa que a cada um dos cristãos foi encomendada pelo Mestre - a de nos considerarmos e de nos comportarmos como instrumentos seus, para corredimir com Ele; a de consumirmos toda a vida no alegre sacrifício de nos entregarmos pelo bem das almas.


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A figueira estéril

Também é S. Mateus quem nos conta que Jesus voltava de Betânia com fome. A mim comove-me sempre Cristo - particularmente quando vejo que é Homem verdadeiro e perfeito, sendo também perfeito Deus - que nos ensina a aproveitar até a nossa indigência e as nossas debilidades naturais e pessoais, a fim de nos oferecermos integralmente - tal como somos - ao Pai, que aceita gostosamente esse holocausto.

Tinha fome! O Criador do universo, o Senhor de todas as coisas padece fome! Senhor, agradeço-Te que - por inspiração divina - o escritor sagrado tenha deixado esse sinal nesta passagem, com um pormenor que me obriga a amar-Te mais, que me ensina a desejar vivamente a contemplação da tua Humanidade Santíssima! Perfectus Deus, perfectus homo, perfeito Deus e perfeito Homem, de carne e osso, como tu, como eu!


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Jesus tinha trabalhado muito na véspera e, ao percorrer o caminho, sentiu fome. Movido por esta necessidade, dirige-se àquela figueira que, lá adiante, apresenta uma esplêndida folhagem. Relata-nos S. Marcos que não era tempo de figos; mas Nosso Senhor aproxima-se para os colher, sabendo muito bem que nessa estação não os encontraria. Todavia, ao comprovar a esterilidade da árvore com aquela aparência de fecundidade, com aquela abundância de folhas, ordena: Nunca jamais coma alguém fruto de ti .

São palavras duras! Nunca jamais haja fruto em ti! Como ficariam os discípulos, sobretudo ao considerarem que era a sabedoria de Deus que falava!? Jesus amaldiçoou esta árvore, porque só encontrou aparência de fecundidade, folhagem. Assim aprendemos que não há desculpas para a ineficácia. Talvez digam: não tenho conhecimentos suficientes... Não há desculpa! Ou afirmem: é que a doença...; é que o meu talento não é grande; é que não são favoráveis as condições; é que o ambiente... Também não valem essas desculpas! Ai de quem se enfeita com a folhagem de um falso apostolado, ai de quem ostenta a frondosidade de uma aparente vida fecunda, sem intenções sinceras de conseguir fruto! Parece que aproveita o tempo, que se mexe, que organiza, que inventa um novo modo de resolver tudo... Mas é improdutivo. Ninguém se alimentará com as suas obras sem seiva sobrenatural.

Peçamos ao Senhor para sermos almas dispostas a trabalhar com heroísmo fecundo, pois não faltam muitos na terra que, quando as pessoas se aproximam deles, só apresentam folhas: grandes, reluzentes, lustrosas. Só folhagem, exclusivamente, e nada mais. E as almas olham para nós com a esperança de saciar a sua fome, que é fome de Deus! Não é possível esquecer que contamos com todos os meios para isso, ou seja, com a doutrina suficiente e com a graça do Senhor, apesar das nossas misérias.


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Recordo-vos de novo que nos resta pouco tempo: tempus breve est, porque é breve a vida sobre a terra. Além disso, recordo-vos também que, tendo aqueles meios, não necessitamos senão de boa vontade para aproveitar as ocasiões que Deus nos concedeu. Desde que Nosso Senhor veio a este mundo, iniciou-se a era favorável, o dia da salvação, para nós e para todos. Que o Nosso Pai, Deus, não tenha de dirigir-nos a censura que já manifestou pela boca de Jeremias: a cegonha conhece no céu a sua estação; a rola, a andorinha, o grou conhecem o tempo da sua arribação; mas o meu povo não conhece o juízo do Senhor.

Não existem datas más ou inoportunas. Todos os dias são bons para servir a Deus. Só surgem os maus dias quando o homem os desaproveita com a sua falta de fé, com a sua preguiça, com a sua inércia que o inclina a não trabalhar com Deus e por Deus. Bendirei o Senhor em todo o tempo!. O tempo é um tesouro que passa, que se escapa, que corre pelas nossas mãos como a água pelas penhas altas. Ontem já passou e o dia de hoje está a passar. Amanhã será bem depressa outro ontem. A duração de uma vida é muito curta. Mas, quantas coisas se podem realizar neste pequeno espaço, por amor de Deus!

Nenhuma desculpa nos aproveitará. O Senhor foi pródigo connosco. Instruiu-nos pacientemente; explicou-nos os seus preceitos com parábolas e insistiu connosco sem descanso. Como a Filipe, pode perguntar-nos: há tanto tempo que estou convosco e ainda não me conhecestes?. Chegou o momento de trabalhar deveras, de ocupar todos os momentos da jornada, de suportar - gostosamente, com alegria - o peso do dia e do calor.


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Nas coisas do Pai

Penso que nos ajudará a terminar melhor estas reflexões uma passagem do Evangelho de S. Lucas, no capítulo segundo. Cristo é uma criança. Que dor a de sua Mãe e a de S. José, porque - no regresso de Jerusalém - não vinha entre os parentes e amigos! E que alegria a sua, quando o vêem, já de longe, doutrinando os mestres de Israel! Mas reparai nas palavras, aparentemente duras, que saem da boca do Filho, ao responder a sua Mãe: por que me buscáveis?.

Não era razoável que o procurassem? As almas que sabem o que é perder Cristo e encontrá-lo podem compreender isto... Por que me buscáveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai?. Não sabíeis, porventura, que eu devo dedicar totalmente o meu tempo ao meu Pai celestial?


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Este é o fruto da oração de hoje: que nos persuadamos de que o nosso caminhar na terra - em todas as circunstâncias e em todos os momentos - é para Deus; que é um tesouro de glória, uma imagem do Céu; que é, nas nossas mãos, uma maravilha que temos de administrar, com sentido de responsabilidade perante os homens e perante Deus, sem necessidade de mudar de estado, no meio da rua, santificando a nossa profissão ou o nosso ofício, a vida de família, as relações sociais e todas as actividades que parecem à primeira vista só terrenas.

Quando tinha vinte e seis anos e percebi em toda a sua profundidade o compromisso de servir o Senhor no Opus Dei, pedi-lhe com toda a minha alma oitenta anos de gravidade. Pedia mais anos ao meu Deus - com ingenuidade infantil de principiante - para saber utilizar o tempo, para aprender a aproveitar cada minuto ao seu serviço. O Senhor sabe conceder essas riquezas. Talvez tu e eu cheguemos a poder dizer: sou mais sensato que os anciãos, porque observo os teus preceitos. A juventude não tem de ser sinónimo de despreocupação, assim como ser velho não significa necessariamente prudência e sabedoria.

Recorre comigo à Mãe de Cristo. Mãe Nossa, que viste crescer Jesus, que o viste aproveitar a sua passagem entre os homens: ensina-me a utilizar os meus dias em serviço da Igreja e das almas. Mãe bondosa, ensina-me a ouvir, no mais íntimo do meu coração, como uma censura carinhosa, sempre que for necessário, que o meu tempo não me pertence, porque é do Nosso Pai que está nos Céus.


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